Entrevista exclusiva com Gabrielle Duplantier

 

  Gabrielle Duplantier possui o dom de ver além da realidade que nos cerca, de cavar sutilmente, mas ainda profundo o suficiente, para transmitir através de fotos, emoções que são frequentemente negligenciadas por nós diariamente. No seu mais novo trabalho, intitulado Volta, a artista retorna ao seu passado e origens, trazendo à luz, temas  em um frenesi de movimentos e exultações. Em uma entrevista exclusiva, Gabrielle falou conosco sobre sua recente exibição no Brasil (postamos todos os detalhes aqui), suas inspirações,  sobre crescer no País basco e sua relação com seus irmãos no Gojira.

Como aconteceu a exibição no Brasil e como tem sido a resposta do público?
G: Myriam Mugica, diretora da Belèm Alliance Française, tomou a iniciativa de organizar esta exibição. Eu a conheço por anos; ela já me convidou para exibir em mais ou menos dez  Alliances Françaises na Espanha em 2009, e sempre acompanhou meu trabalho. Neste ano, com a publicação do meu livro Volta, Myriam colaborou com o ótimo Museu da UFPA em Belém para apresentar a exibição de fotos deste livro. A elaboração à distância acabou sendo muito satisfatória. Eu recebi boas respostas dos funcionários do museu, da imprensa e do público, todos parecem apreciar a atmosfera de Volta.

Você tem interesse na arte e cultura brasileiras?
G: Eu conheço quase toda trilha sonora do filme Orfeu Negro, que eu costumava a ouvir quando era muito nova. Eu descobri o filme anos depois, o que foi um choque. É um dos filmes mais bonitos que já vi. Além disso, o que eu noto do Brasil é sua música, claro, seus ritmos agitados, sua arte de rua, suas cores malucas e sua expressão selvagem através da dança. Eu amo o som da língua também.

Para mim, suas fotos evocam um espectro de ânsias escondidas, como se à cada face, à cada cenário tivesse, finalmente, sido dada a chance de contar suas histórias, seus medos, suas lutas, suas belezas. Parece que uma vida inteira foi retratada em um flash de um segundo e veio à luz na silenciosa atmosfera do preto e branco, e por tal chance, o mundo sempre pararia... apenas por aquele click. Como você frequentemente imagina a interação entre os cenários e o(a)s modelos? Você tem uma emoção prévia que gostaria de expressar ou um tema para explorar e assim escolhe cenas particulares que possam transmití-los, ou você se depara com uma cena particular e sente o desejo de fotografá-la? 
G: Cada figura tem seu contexto específico, com ou sem cenário, ou às vezes com uma mistura acidental de ambos. Eu sonho sobre certas imagens, eu sou inspirada por várias coisas mas nada claramente definido, por isso eu experimento, eu componho com a realidade, procurando me afastar, (para encontrar) uma abertura pela qual eu posso adentrar e talvez, assim, encontrar algo que estava até então, invisível.
Eu não intelectualizo nada, eu sou simplesmente guiada por este mistério, eu nunca procurei entender nada e é daí eu tiro minha maior alegria. O que eu sei é que para mim, tirar fotos tem a ver com sentimentos. 
 

Crescer no país basco teve um grande impacto na sua arte. Tendo viajado para vários lugares, quais são as nuances que, para você, são únicas desta região?

G: O mundo é cheio de lugares suntuosos, e de uma luz fabulosa. O país basco é certamente um desses lugares, mas a razão pela qual eu tiro fotos daqui é porque eu vivo aqui, então eu não tenho que ir tão longe para dar continuidade ao meu trabalho. Se eu estivesse morando na China, eu fotografaria a China.


Um tema que é recorrente em seu trabalho é a feminilidade. Ela transborda de todas as suas fotos, aparecendo às vezes sutilmente no voo de pássaros ou na grandiosidade de uma capela, e outras vezes em sua mais pura incarnação: nas mulheres. Entre todas as suas infinitas manifestações, qual são os traços pessoais que você mais aprecia capturar em seu trabalho? 
G: A melhor explicação para o sentimento que você tem é o fato de que eu sou uma mulher, e necessariamente vejo as coisas e as pessoas com olhos femininos. De qualquer maneira, o assunto é menos importante do que do jeito pelo qual é tratado; isso é sempre uma interpretação pessoal. 


Outra série de fotografias que é uma das minhas favoritas é "Les enfants d'ici" ("As crianças daqui" - a qual pode ser vista aqui). Eu sinto a necessidade iminente e urgente de retratar o mundo através dos olhos de uma criança antes que esse se esvaia completamente. Qual é a principal sensação que você quis acordar no público? Você imaginou isso como uma porta através da qual poderíamos nos reconectar com nossos 'eus mais jovens'?
G: A série "Les enfants d'ici" é sobre os vários momentos que eu passei com as crianças de uma escola fundamental em um bairro não tão privilegiado da minha cidade, no qual eu ministrei um workshop sobre fotografia para as crianças durante anos. Enquanto eu trabalhava com as crianças, eu comecei a fotografá-las, em simples situações e interações diárias. Os arredores eram particularmente severos e eu achei o contraste entre as crianças e o lugar aonde estavam crescendo muito inspirador. Eu acabei sendo convidada a montar um livro com tais fotos. 

Como foi trabalhar com seus irmãos desde o começo e experienciar, através das suas lentes, a arte do Gojira evoluindo?
G: Eu tenho sorte de ter um ótimo relacionamento com meus irmãos. Nós temos uma sensibilidade comum em vários campos. Eu amo a música deles e fui em seus shows desde o começo em pequenos bares e em eventos locais. Primeiramente, eles me pediram para tirar fotos da banda, para ajudar, já que eu estava lá e tinha uma câmera. Os anos se passaram e todos progredimos em nossas disciplinas, e nossa colaboração continuou e vem se tornando melhor com o tempo.
Eu tiro fotos para a imprensa, shows ao vivo ou para arte dos álbuns. Às vezes, eles compõem músicas para meus projetos pessoais, como apresentações ao vivo. Eu admiro seus espíritos e sua inteligência. Eles são artistas completos.
 
Por fim, mas não menos importante, quais são seus planos para o futuro?
G: No presente, eu tenho vários projetos acontecendo, eu vivo dia após dia.

Nós te agradecemos, Gabrielle, por responder nossas perguntas e te desejamos tudo de melhor para sua carreira e futuro.

Encorajamos à todos que tenham a oportunidade, à ir na exibição de Volta no museu da UFPA, que vai até dia 17/04.
Volta pode ser adquirido no http://www.lamaindonne.fr/lamaindonne/Volta.html
Para mais sobre o trabalho de Gabrielle, acesse seu site pessoal: http://www.gabrielleduplantier.com/
Todas as fotos por Gabrielle Duplantier.

Um comentário:

  1. Não sabia que eles tinham uma irmã fotografa, muito interessante

    ResponderExcluir

Copyright © 2013-2017 Gojira Brasil